Soundcheck - 103

Soundcheck é o teste do som, feito antes do acesso do público ao local do show. Oportunidade de músicos e técnicos checarem equipamento e palco. Por influência de nossos hermanos do Prata, há quem chame - no sul - de "prova de som". 

Eu e minha geração falamos "passagem de som" (o que me traz à mente a imagem nada a ver de um som passando (Efeito Doppler é o seguinte: quando um som é emitido por uma fonte em movimento em relação ao receptor, este ouve uma mudança de tom: mais agudo ao se aproximar, mais grave ao afastar-se (é a deformação de som que a gente percebe quando passa uma ambulância (a comprovação científica foi obtida numa experiência, em 1845, em que uma locomotiva puxava um vagão com vários trompetistas (wikipedia))))).  

Há um dito corrente entre músicos afirmando jocosamente que "quando o equipamento é bom, não precisa passar som; quando é ruim, não adianta".  


(*)

"Não precisa" e "não adianta" formam as margens de um abismo onde muita coisa cai e se perde. Há momentos em que a própria palavra mergulha nesse buraco negro. 

Quando pintam assuntos palpitantes (as manifestações de rua, por exemplo) rolam papos (nas redes sociais sobretudo, mas não por culpa delas) em que as opiniões ficam cada vez mais simplificadas, esquemáticas e rasteiras. Junta-se num canto do ringue quem pensa assim e no outro, quem pensa assado. No meio, um imenso vazio onde a palavra perde o que tem de mais legal, a possibilidade de criar pontes. 

Fica a impressão de que entre "torcedores" da mesma ideia, a palavra é desnecessária e entre "torcedores" de ideias diferente, ela é inútil. E vai pro saco a chance de sacar e comentar sutilezas (nada sutis) que resumem num ponto com alta densidade de significados o que parece se diluir no quadro geral. Oportunidade perdida, uma pena...

( A mega-empresa de material esportivo que patrocina o torneio que a FIFA está fazendo no Brasil coloca no ar, no intervalo dos jogos, uma propaganda que - seguindo a cartilha de marketing das grandes corporações que querem falar à juventude - usa alguns clichês de malandragem de rua. No fim do anúncio, um coquetel Molotov é arremessado numa pilha de aparelhos de TV. Se entendi o roteiro da propaganda, trata-se de um pesadelo de um dos jogadores patrocinados pela marca. Que ironia... ).
abraços
18jun2013

p.s: E segue a tour HG2013. Sexta e sábado estarei no Paraná: Campo Mourão e Curitiba. À  capital, volto depois de 1987, 88, 89, 90, 91, 94, 95, 96, 98, 99, 2001, 02, 05, 06, 08, 09, 10, 11 e 2012. Quem foi? Quem vai? Abaixo fotos de algumas destas passagens.

1989ago soundcheck
1995mai
1995dez
1999nov
2002mai
2005dez
2006set
2008mai soundcheck 
2009set
2010mai
2012jul

Ops... Hoje não vai rolar texto. Volto semana que vem, quando a segunda 16 virar terça 17. Até lá, um abraço.

Ah, e neste sábado volto a Bauru-SP depois de 1989, 1992, 1996, 1997, 2001, 2003, 2005 e 2006. Quem foi? Quem vai? Abaixo algumas fotos destes shows.

out 1992
mai 1996
fev 2001
abr 2001
jul 2003
ago 2006

Escuridão Antes de Amanhecer - 102

E aí, como vocês têm passado? Aqui em POA, chegou o frio de 2013 e a semana foi corrida. Cruzei duas vezes o país para shows espetaculares em Fortaleza e Recife. Entre os dois, dei duas clicadas importantes no send:  mandei o livro novo para o editor e o INSULAR para masterizar.

Agora, segue a busca da capa certa para ambos. E a constatação de que mudou muito nossa sensibilidade gráfica com a profusão de imagens que nos chegam e a facilidade de edição do mundo digital – mudou muito o papel (ops, literalmente!) de uma capa de disco. Se esta constatação afetará o resultado do que estamos fazendo? Não sei… A vida real não é tão linear quanto as teses.

É um momento estranho este em que livro e disco já estão prontos mas ainda não ganharam vida - algo  que só acontece quando alguém lê/ouve. Confesso que pinta uma certa (não diria aprensão, mas) curiosidade a respeito de como chegarão às pessoas, como serão recebidos. 

Sentimentos deste tipo nunca rolam quando estou escrevendo, gravando. Ao contrário do pensamento corrente, sempre achei um sinal de respeito do artista em relação ao seu público não pensar nele quando cria. Não quero que meus artistas preferidos tentem me paparicar. Não quero que políticos façam pesquisa para saber o que os eleitores querem ouvir. Quero que ambos sigam seus instintos e corram o risco de não encontrar ninguém na plateia do teatro ou nenhum voto na urna.

Agradar é sempre algo ótimo e bem vindo, mas não acho que deva ser a finalidade última. Deve ser consequência de algo difícil de explicar mas fácil de sentir.

Noto que a ansiedade (pronto, usei a palavra) é bem menor com o INSULAR e com o livro novo. Nas muitas milhas percorridas, já senti na pele que não adianta e não precisa forçar a barra. Livros e discos acabam encontrando seus leitores, ouvintes. Se não muitos, ao menos os certos.

É o que tenho feito desde longe demais das capitais: clicar send. Mesmo antes de existir um cursor e essa opção na tela. Por sorte, sempre encontrando generosos ouvidos e olhos - corações e mentes. Aos quais agradeço tentando não pensar neles para que a magia não se quebre.
Por hoje é só. Tomem cuidado! Mas arrisquem-se! Mas tomem cuidado mas arrisquem-se mas tomem cuidado mas arrisquem-se… até terça que vem.
bah 1: Ao som da tardia parceria entre Pete Townshend e David Gilmour: always knew it was crazy / to put my love on the air / but I only communicate / when I put my love on the air

bah 2 : DE FÉ em Fortaleza: http://www.youtube.com/watch?v=lGBT0m3Kfmo&feature=youtu.be
O EXÉRCITO DE UM HOMEM SÓ em Fortaleza: http://www.youtube.com/watch?v=HLOEq_eBIMo
03jun2013

Primeiras vezes - 101

Ao periodo de gravação de um disco, sucede um tempo de desaceleração. Os dias ficam maiores, voltam a seu tamanho normal. As atividades, apesar de ainda criativas, ficam mais mornas: detalhes do projeto grafico, alguma pequena mudança na ordem das músicas...

... e começam os pensamentos sobre como mostrar o disco ao mundo. Aí recomeça a agitação, pintam as ideias sobre como transpor as musicas para o show. Quais tocar, como tocá-las. 

A maneira mais simples é reproduzir os arranjos de forma literal, nota por nota, com a mesma instrumentalização. Também há a possibilidade de fazer o oposto, recriar o disco a cada show. Entre as duas, se situa o caminho que pretendo seguir. Não será novidade para mim, é o que sempre fiz. Mas será mais interessante agora que gravei todos os instrumentos - com exceção da bateria e das participações dos convidados.

Estou falando da sutil e subjetiva arte de condensar informação sonora. Como o voo de uma pomba desenhado por um simples traço de grafite (não errei a concordância (não desta vez): o desenho é do voo e não da pomba - mais difícil e inevitável que seja assim).

Estou falando, ainda, da magia de fazer soar notas que não são tocadas. Apresentar os elementos fundamentais e, principalmente, sugerir os outros. Perdão, uso mal a palavra "principal". Não existe "principal" e "secundário" no ofício/arte do mágico que nos surpreende cada vez que tira um coelho da cartola.

Quero manter o formato power trio na estrada. Em muitas canções gravei muito mais do que 3 instrumentos. O grande barato é fazer essas duas linhas se encontrarem criando - com o público - um terceiro ponto. Esta magia é que tem feito tudo mais valer a pena nestes 28 anos.

(*)

Nos shows, por enquanto, tenho tocado só duas musicas do INSULAR  (Tudo Está Parado e Tchau Radar). Pelo singelo fato de já terem sido gravadas e lançadas pelos parceiros.

Preservo o resto do material por querer dar aos ouvintes, especialmente aos fãs, o prazer da " primeira ouvida". Sei que não é facil nos tempos pós-www, mas para mim a primeira audição de um  disco sempre foi um momento especial. O inicio de um diálogo que começa com muitas perguntas (por que isso, por que aquilo, como assim, como assado) e vai se transformando em adjetivos. Sensação fugidia que tento manter.

Vou morrer sem conseguir expressar o que senti ao ouvir pela primeira vez o Wish You Were Here, sem saber nada a respeito dele além das poucas informações do encarte, que mais escondiam do que revelavam... com ouvidos em estado de atenção total e olhos escaneando cada centímetro quadrado da capa. Como são frágeis e valiosas as primeiras vezes!

Adoraria poder ouvir meus próprios discos assim, pela primeira vez, sem ter escrito, arranjado, gravado e mixado as músicas... infelizmente não é possível. Quando a gente grava, fica como o churrasqueiro que vai tirando lascas e, pronta a carne, já não tem fome. Demora um pouco pra ela voltar. Por isso, sempre fico com a contraditória impressão de que todo mundo ouviu o disco antes de mim.

Mas graças a Deus, há vários artistas que me dão este prazer. Agradeço os churrascos sonoros e literários que eles preparam. De lamber os bigodes!

(*)

E segue o baile. Esta semana a parada é no Teatro da UFPE, em Recife. De volta à capital pernambucana depois de 1988, 89, 90, 91, 92, 93, 97, 2000, 01, 02, 03, 04, 05, 06, 10, 11 e 2012. Quem foi? Quem vai? Abaixo fotos de alguns destes shows.

Nas primeiras idas a Recife, no fim dos 80, me chamava atenção a qualidade da livraria do antigo aeroporto. Muito acima da média!

Livrarias de aeroporto, pelo espaço exíguo, geralmente se limitam a best-sellers. E, no caso, o público alvo imagino que seja pessoas em férias (que não querem esquentar a cabeça com palavras de muitas sílabas) e executivos (a fim de descobrir os últimos truques para se dar bem). Mas a livraria do velho aeroporto de Recife era muito variada e interessante.

( Assim como eram variados e interessantes os doces no antigo aeroporto de Curitiba. Se bem que ainda rolam doces incríveis lá, eu acho. Quando perguntaram ao técnico Rubens Minelli quanto tempo ele havia passado treinando na cidade, ele respondeu: 8 kilos. )

Paralelos entre as culturas pernambucana e gaúcha são frequentes. Eu entendo as semelhanças. Ainda que Pernambuco tenha sabido, ao longo dos anos, muito melhor do que o Rio Grande do Sul, tratar do seu folclore, da cultura regional. Não é a toa que pinta pelo caminho um Chico Science...


Ops, prometi fotos de shows em Recife e... viajei pelos aeroportos... agora vai:

1993
1997
2000

2001

2002
2002
2004
2010


abraços
28mai2013

Silenciosas Estátuas na Avenida Anonimato - 100

Tenho certa intimidade com elas, uma vida em comum. Acho que não ficarão melindradas se eu fizer uma confidência. Estou falando das palavras e do fato, cada vez mais frequente, de serem insuficientes para expressar algumas - ahn... qual seria a palavra? - coisas, sentimentos.

Fiquem tranquilas, minhas amigas palavras, esta deficiência não as fere de morte. Pelo contrário: a tentativa vã do ser humano de juntá-las (em prosa, poesia, canções, discursos, relatórios, etc...) para explicar o inexplicável, tentando exprimir sentimentos que não entendemos, tem gerado obras de beleza - ahn.. qual seria a palavra? - inexplicável.

(*)

Penso nisso agora que, terminada a gravação do INSULAR, tenho dedicado mais tempo ao livro novo...

(*)

Datas cívicas e personalidades políticas se repetem no nome de grandes avenidas em várias cidades (7 de setembro, Getúlio Vargas, Castelo Branco...). O que realmente interessa não ganha estátua, não vira nome de rua. Avenida Paz de Espírito, existe? Nem tudo tem que estar na cara, decifrado, né? Há muita vida além dos outdoors. Palavras e monumentos não dão conta de tudo.

(*)

Bah, chegamos ao centésimo post! Alguém aí acompanhou todos? Valeu! Um abraço a quem tá chegando agora e vibrações positivas para quem já esteve por aqui. Segue o baile.

(*)

E, se o baile segue, esta semana toco em Fortaleza. Um amigo pediu um histórico do datagagê  das vezes que toquei na capital do Ceará. Aí vai: 1987, 88, 89, 90, 91, 92, 93, 94, 99, 2000, 01, 02,  03, 04, 05, 06, 07, 08, 10, 2012. Infelizmente, não tenho fotos de todos os shows. Mas tenho a lembrança de terem sido alguns dos pontos altos de cada tour! Quem foi? Quem vai?

1999
2001
2002
2002
2003
2006
2006
2007
2008
2010
2012
2012 - Bienal do Livro

21mai2013

Quando a Distância não Separabólica - 99


Perda de tempo andar em linha reta. São abstrações; não existem na natureza linhas retas, círculos perfeitos e triângulos equiláteros. Tudo é aproximado, negociação entre querer e poder.

É no zigue-zague da agulha fazendo a linha unir dois panos que se caminha. Até que um dia soe perfeitamente natural quando alguém disser que a distância aproxima.

(*)

Semana passada, num posto de beira de estrada, nas andanças entre shows, depois de muito tempo, voltei a comprar um disco do Gaúcho da Fronteira. Já na primeira faixa fui transportado ao Rio de Janeiro em 1991, a um apartamento na lagoa, ao estranhamento que causavam bombachas numa banda de BRock naquele início de década.

Em meio às curvas e corcoveadas do ônibus pelo pampa, observei o encarte do disco. 9 fotos. em cada uma delas, um sorriso aberto. Provavelmente mais do que sorri em toda minha vida.

Foi a distância que me aproximou desta vertente mais popular da música tradicionalista (Teixeirinha, Gildo de Freitas, Gaúcho da Fronteira). Se eu não estivesse morando no Rio, talvez até regravasse alguma canção gaudéria, mas provavelmente seria algo mais reflexivo e intimista, mais parecido comigo. Fico feliz que a distância tenha trazido perspectiva ao meu olhar. A mistura de ambientes me ensinou muito.

(*)

Sempre me interessei pelo contrabaixo, sua história, seus ícones, a técnica… Esforcei-me para honrar suas, por vezes, contraditórias tradições. Adaptei-o a minhas necessidades, limitações e desejos.

Fiquei 4 anos sem tocá-lo, na estrada com o Pouca Vogal. Passeava pelas frequências graves com a PK5, um teclado que, tocado com os pés, fazia a função do baixo.

Agora, voltei ao baixo num power trio e me surpreendi: sem falsa modéstia, estou tocando melhor do que antes. Apesar do hiato. A limitação das 12 notas da PK5 (só uma oitava... ainda por cima, tocada com os pés enquanto as mãos e a boca se ocupavam de outros sons) me ensinou muito sobre o instrumento e sua função. Mais uma vez, a distância aproximou.

(*)

Às vezes a gente se sente, pra citar aquela ópera, como uma pluma ao vento. Depois de alguns voos divertidos, a subordinação aos caprichos das correntes de ar pode ser um saco! Quando o vento parece estar nos levando na direção contrária aos nossos desejos, é bom lembrar que a distância pode aproximar.
14mai2013

Vâmo! Vâmo! (pr'aonde?) - 98


A cena é recorrente em filmes de guerra: o soldado ferido fica para trás, não consegue acompanhar o pelotão. O comandante vai até ele e, para animá-lo, faz um sermão motivacional que mais parece um esporro do tipo “você é um homem ou um rato?". Coitado do cara, tá todo estropiado e ainda tem que aguentar a mala do chefe!

Há adaptações da cena para vários tipos de filme. Sobre esporte, por exemplo. Basta substituir general e soldado por técnico e atleta. Num filme sobre a busca do estrelato, é só colocar produtor e músico, diretor e ator, etc...

Situações limites da vida real levadas ao limite pela ficção. Cores berrantes demais. Um desequilíbrio na gangorra impressionismo/expressionismo.

(*)

A adrenalina, que corre nas veias para deixar o animal mais esperto num momento de perigo, pode não ser uma boa conselheira a longo prazo.

(*)

Dizem que o lateral direito de um grande time se emocionou tanto na palestra antes do jogo (papo emotivo envolvendo carta dos filhos e fotos da mãe pedindo vitória, com trilha sonora melosa no início e Eye Of The Tiger no fim) que entrou chorando em campo e cometeu um pênalti aos 8 minutos de uma semifinal de Brasileirão.

Com frequência, me sugerem que faça uma canção enaltecendo o clube de futebol para o qual torço. Eu até poderia enfileirar alguns lugares-comuns, fanfarronices do tipo “passar por cima”, numa melodia épica. Mas, pra ser sincero (e minha única chance de escrever boas canções é sendo sincero – não falo isso com orgulho, imagino que seja uma limitação) a canção que eu poderia escrever teria uma andamento lento e diria “estou roendo as unhas no concreto frio da arquibancada, viajando, viajando".

(*)

Fico meio cabreiro com discursos motivacionais. Efeito contrário, eles me deprimem. Assim como canções melancólicas podem animar, fazendo companhia. Às vezes é tudo que se pode: estar disponível, ficar ao lado, ouvir. A não ser que alguém ache mesmo que tem resposta para todos os enigmas do universo, de ataques alienígenas ao achaque do flanelinha da esquina.

(*)

O general (o técnico, o produtor, o diretor) pode preferir esbravejar ou insinuar. O soldado (o jogador, o músico, o ator) pode reagir melhor a gritos ou sussurros. De certo mesmo, só o seguinte: a solução, para todos, está dentro de cada um. Se não estiver ali, não está em lugar nenhum.

(*)

bah: Este foi um texto sobre política.
07mai2013

A Arte dos Pequenos Gestos - 97


COISAS DAS QUAIS EU POUCO ENTENDO
SOBRE AS QUAIS NADA DEVERIA FALAR
PARTE 3 : CHARME

Atletas perfilados para a execução do hino antes do jogo. A câmera passeia pelos rostos. Alguns,  tensos. Outros, aparentemente relaxados. Quase todos focados. Game face.

A maior parte dos jogadores finge ignorar que a câmera os transformará num 3x4 que preencherá telas de TV por todo o planeta. Um deles encara e, com habilidade inigualável, pisca um olho para a câmera. Meu Deus! Se ele jogar com uma fração desta categoria, tá ganha a partida.

Pensei que estivesse extinto este gesto, que seus últimos praticantes fossem boy bands e baliarinas de programa de auditório dos anos 80 ou, mais recentemente, atrizesmanequinsmodelos no lançamento da revista em que estão nuas na capa. Nestes casos, o piscar de olhos é geralmente acompanhado por inclinação de pescoço (como se a figura estivesse sendo enforcada... e adorando a situação) ou um beijo no ar sobre a palma da mão seguido de sopro para que o ósculo, qual pluma ao vento, voe até o coração receptor. Ah, que coisa linda só que não!

Meros iniciantes, amadores... O piscar de olho a que me refiro foi diferente. Feito por um profissional com dom inato para o gesto.

Comentaristas esportivos costumam chamar os pênaltis muito óbvios de "penalidade máxima de concurso". Pois Ribery -era ele!- mandou uma piscada de olho "de concurso". Deveriam usar o video em aulas para celebridades e cursos preparatórios de candidatos a cargo eletivo - não adianta imprimir um manual pois o piscar de olhos é difícil de explicar/entender além de ser infotografável. Depende do movimento.

Parece fácil. Creiam, não é. Há que ter os músculos certos no lugar certo e com a flexibilidade exata para não parecer um tique nervoso, um esgar. Há que ter o ritmo, dar a sensação de que nunca havia passado pela cabeça a ideia de piscar o olho, que foi uma reação espontânea à visão, repentina, dos olhos da pessoa para quem a piscada é direcionada. Muito mais difícil, imagino, executar o gesto para uma câmera de TV - essa abstração que, ao mesmo tempo, não é ninguém e é todo mundo.

Mas Ribery é francês, talvez isso explique sua habilidade. São séculos misturando requinte e grossura - segundo os clichês culturais, franceses fazem os melhores perfumes e carregam pães sob a axila suada, né?

Antes de ser expurgado por bagaceirice, o gesto - majoritariamente masculino - de piscar o olho teve seu auge em tempos pré-www, em situações que exigiam rapidez na criação de um vínculo (uma garota que está lá fora, na parada de ônibus, enquanto o cara tá sentado na janela - uma pedestre que passa pelo pedreiro que constrói um muro e… ok, ok, talvez pedreiros tenham a tradição de serem bem mais explícitos do que um singelo piscar de olhos na sua admiração ao sexo oposto, geralmente usando palavras nada sutis).

É consenso que os tempos digitais são ralos, superficiais. Talvez não sejam tanto nem para tudo. As redes socias, por exemplo, onde as pessoas escancaram suas vidas - nem sempre de forma real, muitas vezes de forma editada - fazem um piscar de olho parecer muito pouco. Comparado ao excesso de informação de um perfil digital, a informação cifrada de um piscar de olho parece coisa de iniciados.

Mais uma arte que se foi para sempre. Talvez Ribery seja seu último guardião.
um abraço
sem piscar de olho
pois não faço bem
30abr2013

Hora do Mergulho - 96

Pela primeira vez, a virada de segunda para terça chegou sem que eu tivesse escrito algo com antecedência, com início meio e fim (não necessariamente nessa ordem). O tempo, esse brincalhão, parece saber quando estamos na correria e, só de sacanagem, também apressa o passo. Anda maís rápido quando a gente mais precisaria fazê-lo render. 

Não me faltaram ideias nem vontade de desenvolvê-las, mas ah, cadê foco? E tempo? Do tempo, já falei - o danado parece esconder-se de propósito.

Para mentes 100% racionais que não param de ligar causa e efeito, tudo tem uma explicação, conhecida ou não. Não me incluo neste time, mas arrisco uma explicação para o vacilo deste texto vacilante: o disco que estou finalizando. 

Parece bobagem, né? Mas o danado do INSULAR tem drenado minhas energias, o que deixa  este capricorniano muito mais feliz do que cansado. Todo o resto perde força quando a gente tá concentrado em materializar algo que sonhou. Eu, pelo menos, sou assim com minha música. O sono, o jogo de tênis, o coffe break, tudo mais fica suspenso até que as ideias e emoções ligadas  ao disco dêem uma folga.

Já conversei a respeito com colegas que agem de maneira oposta: em vez de mergulhar (pra dentro, se tal é possível), abrem-se ao mundo quando estão compondo e gravando. Gostam de ouvir várias opiniões e de se inteirar sobre o que está acontecendo por aí. Eu, nem pro pessoal de  casa mostro o material antes de estar muito próximo de pronto. São dois caminhos igualmente válidos, apesar de opostos. Talvez o deles seja melhor para quem quer evitar erros e o meu seja melhor para quem quer acertar - sem esquecer que, quando se fala de arte, é uma questão sempre indefinida o que seja erro e acerto.

(*)

Nas gravações d'O PAPA É POP, recebi a visita de um grande músico que gravava no estúdio ao lado. Conversa vai, conversa vem, notei que ele olhava com estranheza para as paredes onde eu havia colado várias fotos e posters (eram tempos pré-interntet onde nosso imaginário visual era todo de papel). O olhar do colega se fixou num canto da parede onde eu havia colocado a ordem das músicas do disco e um cronograma de gravações. Não demorou para que ele ficasse zoando do meu excesso de zelo. Tinha razão, o companheiro. Mas não toda.

Respondi às ironias dizendo que sabia de cor e até acreditava em todo o blah blah blah sobre espontaneidade (no fim das contas, esta é a nossa matéria-prima: sensibilidade, sim; burocracia, não). Mas contra-ataquei argumentando que disciplina é liberdade. Há quem confunda espontaneidade com preguiça de pensar um palmo adiante. Apesar dos meus gráficos e cronogramas, era eu que virava noites e emendava dias ao sabor da inspiração enquanto ele, pretensamente livre, gravava em horário comercial com pausa todo dia à mesma hora para um lanche.

(*)

No voo que nos trouxe de volta das gravações do SIMPLES DE CORAÇÃO, enquanto todos rememoravam experiências de Los Angeles - jogos de beisebol, lojas, restaurantes, table dancing... - eu só conseguia lembrar de ter chorado escondido no estúdio vazio ao ouvir a primeira mix de  Hora do Mergulho. Poderia ter gravado o disco em Marte e a lembrança seria a mesma.

(*)

É na reta final que as coisas ficam mais delicadas. A tinta prestes a secar. A argila solidificando. Entre infinitas possibilidades, é hora de escolher uma mixagem que ficará "oficializada" e será ouvida um monte de vezes por um monte de gente. Mesmo que saibamos que as músicas são seres vivos, em permanente mutação. Nenhuma versão é final.

(*)

Em 19 discos e 4 livros (e já não sei mais quantas canções) aprendi algumas coisinhas sobre o (meu) processo criativo. Já sei que sempre pinta uma reviravolta no caminho. E não adianta  tentar prever, pois aí não seria reviravolta, né?

Parece repentina mas são sementes que germinaram lentamente no inconsciente enquanto outro canteiro era regado. Só esperavam a hora certa para tomar conta do jardim. Sempre pinta viração. Às vezes sutil - uma  brisa trazendo aromas de outros outonos - às vezes vendaval radical.

Esta semana, entre outras coisas, pintou uma música nova que abrirá o disco e gravei sons de um rebanho de bezerros recém desmamados. Não, senhores, não se trata de um disco sertanejo, é que o som dos bichos nesta situação é blues pra caramba!

Acho que isso explica a falta de tempo/foco para um texto com início meio e fim. Então, ficam essas linhas mais como um pedido de desculpas a quem chegou até aqui (no texto). E um agradecimento (a quem passou por todas as postagens): fiquei sabendo que, semana passada, esta nossa esquina na www ultrapassou um milhão de visitas.

Sinceramente não sei o que significa este número. Imagino que não seja algo para se pavonear no mundo corporativo (nos blogs de grandes portais, vinculados a canais da midia tradicional, jornais, rádios, TVs…) ou nos blogs de temas polêmicos (futebol, política). Mas aqui, no nosso cantinho, acho significativo chegar à mística dos 7 dígitos.

Quem diria!?! Sempre escrevo pensando em uma pessoa só. Sem saber quem ela é.



última edição do Guiness Book
corações a mais de 1000
?e eu com esses números?

5 extinções em massa
400 humanidades
?e eu com esses números?

solidão a 2... dívida externa... anos luz
aos 33 Jesus na cruz
Cabral no mar aos 33
e eu
?o que faço com estes números?

mega ultra híper micro baixas calorias
kilowatts... gigabytes

traço de audiência
tração nas 4 rodas
e eu
?o que  faço com estes números?

7 vidas, mais de 1.000 destinos
todos foram tão cretinos
quando elas se beijaram

a medida de amar é amar sem medida
preparar a decolagem
contagem regressiva
a medida de amar é amar sem medida

Valeu a companhia! 
23abr2013